Estava com a minha filha num parque infantil e, como é meu hábito, aproveitei para a observar, assim como o que se passava à minha volta. Reparei num miúdo que brincava simulando estar numa nave espacial. Enquanto vestia a pele de um astronauta e dirigia o seu próprio filme, ia chamando pelo pai – e o pai não olhava. De novo o chamava – e o pai não olhava e o pai não respondia.
O pai estava sentado ao meu lado, completamente absorvido no telemóvel. Mas quem sou eu para julgar. Eu também me distraio, também olho para o telemóvel e muitas vezes não respondo aos outros. E não é por, num dado momento, não dirigirmos a atenção para algo mais importante, que somos melhores ou piores pais ou, extrapolando para o campo empresarial, melhores ou piores profissionais. Mas temos de ter muita atenção se isto se tratar de um padrão.
A ciência da atenção diz-nos que as nossas capacidades de atenção determinam a que ponto executamos bem uma tarefa: se estiverem atrofiadas, saímo-nos mal; se forem musculadas, podemos distinguir-nos (Goleman, 2014), seja no parque infantil ou sentados à secretária. O modo como dirigimos a nossa atenção determina o que vemos (Treisman, 2006).
A atual exposição constante a informação e o aumento das distrações e estímulos que nos rodeiam têm contribuído para uma diminuição do nosso foco. A abundância de informação cria uma pobreza de atenção (Simon, 1971). O facto de estarmos constantemente online tem um efeito nas nossas ações e, consequentemente, nos nossos resultados. Movimentamo-nos num confronto permanente entre o foco e a distração.
Se o foco é a capacidade cognitiva de direcionar a atenção seletiva para um estímulo ou tarefa específica, enquanto inibe distrações irrelevantes (Goleman, 2014), pergunto-me: quantas vezes por dia estamos realmente focados?
A clareza tem aqui um papel crucial, clareza na tarefa ou projeto que tenho em mãos, no meu papel enquanto profissional, enquanto pessoa, no meu estado atual e no meu estado desejado, clareza nas minhas qualidades e nas minhas áreas de melhoria, clareza no que eu quero. Acredito que é a clareza que nos torna mais funcionais, lúcidos e preparados para cada desafio do dia a dia. Em consciência, permite-nos perceber qual é o nosso papel no relacionamento com os outros, connosco e com o nosso trabalho ou carreira.
A clareza sobre o que é importante fornece clareza sobre o que não é importante (Newport, 2016), e podemos também começar pelo que não é importante para identificarmos o que é realmente importante.
A realidade é que passamos grande parte do nosso dia em piloto automático. Este estado generalizado pode ser um dos maiores obstáculos à forma como dirigimos a nossa atenção. Muitas vezes deixamo-nos guiar pelo que é menos importante, permitindo que tarefas desnecessárias e distrativas se intrometam na nossa agenda.
Dirigir a nossa atenção para o objeto mais importante da nossa escolha – e de seguida manter essa atenção – é a decisão de maiores consequências que tomaremos ao longo do dia (Bailey, 2018).
Escolhas. No fundo, tudo gira em torno das nossas escolhas. Será que deveríamos produzir mais escolhas conscientes ao longo do dia? Deverá ser este um exercício diário a integrar na nossa rotina e nos nossos hábitos? Na minha opinião, sem dúvida que sim.
Na gestão do foco e da atenção, o conceito de mindfulness, ou atenção plena, assume também um papel relevante. O mindfulness inclui duas componentes fundamentais: i) a capacidade de autorregular a atenção no momento presente; e ii) o florescimento da consciência de experiências internas (emoções e sentimentos) e externas (o processo de desenvolvimento dos cinco sentidos), juntamente com uma atitude de aceitação experiencial e de um não julgar permanente (Tran et al., 2013; Carraça et al., 2020, citados em Intervenção Psicológica em Contexto Desportivo, 2026).
Desligar o piloto automático, mais vezes ao dia, tem um impacto direto não só na nossa produtividade como também na nossa gestão emocional, especialmente quando estamos emocionalmente mais reativos.
8 passos para o foco intencional
1. Tenha clareza sobre aquilo que pretende atingir (visão macro).
2. Estabeleça uma intenção para aquilo em que planeia focar-se (a intenção precede a atenção).
3. Escolha um objeto de atenção produtivo ou significativo.
4. Elimine o maior número possível de distrações externas ou internas (cuide do seu ambiente).
5. Concentre-se no objeto escolhido.
6. Traga continuamente o seu foco de volta a esse objeto de atenção sempre que sentir a mente a divagar.
7. Introduza pausas organizadas ao longo do dia. Após períodos de foco intenso (cerca de 60 a 90 minutos), faça pequenas pausas de 5-15 minutos.
8. Consistência, como em tudo na vida, vale ouro.
“O teu foco determina a tua realidade.” Qui-Gon Jinn, Star Wars: Episode I – The Phantom Menace
Deixo-lhe um exercício simples. Responda com sinceridade a esta pergunta: Ao longo do dia, com que frequência escolhe aquilo em que se foca?
Rodrigo Bravo
Consultor e Formador em Comunicação, Liderança e Performance