O que o Barómetro RH GALILEU 2026 nos está realmente a dizer
Há um padrão interessante que atravessa praticamente todos os resultados do Barómetro RH GALILEU 2026 (cuja leitura recomendo desde já):
Em Portugal, as organizações estão atualmente menos preocupadas em acompanhar tendências e mais focadas em manter produtividade, capacidade de execução e alinhamento interno. Isto vem alterar a forma como os Recursos Humanos olham para formação, liderança, colaboração e até para a própria Inteligência Artificial.
Os dados do Barómetro mostram-no. Por um lado, 79,6% dos profissionais de RH inquiridos indicam que o investimento em formação vai aumentar ou manter-se em 2026, com quase metade (47,6%) a prever mesmo um reforço desse investimento. Mas mais interessante é perceber onde será feito esse investimento: De acordo com o barómetro, formação técnica específica, gestão intermédia e equipas operacionais concentram a maior parte das prioridades estratégicas.
Ou seja, parece existir uma preocupação pragmática com performance, operacionalização e impacto direto no negócio. E, no entanto, em paralelo, as competências consideradas mais críticas até 2027 continuam a ser profundamente humanas: liderança, comunicação, colaboração, pensamento crítico e adaptabilidade.
À primeira vista, pode parecer contraditório, mas na prática faz todo o sentido. Em contextos de trabalho mais exigentes, a produtividade deixa de depender apenas de eficiência individual e passa a depender das interações dentro de e entre equipas.
Talvez por isso, um dos dados mais relevantes do Barómetro seja o crescimento muito expressivo da perceção da competência “Comunicação” enquanto crítica para o sucesso da organização, passando de 13% em 2025 para 46,6% este ano. É um salto enorme, mas pouco surpreendente já que grande parte dos bloqueios de produtividade acontece por falta de alinhamento, excesso de ruído, prioridades pouco claras, dificuldade em decidir rapidamente ou incapacidade de colaboração entre áreas. A comunicação é crítica ao funcionamento organizacional. O mesmo acontece com liderança intermédia, que surge entre as principais áreas de investimento em formação. As empresas compreendem que muitos dos ganhos (e perdas) de produtividade acontecem precisamente no nível dos managers: na forma como gerem equipas, distribuem trabalho, dão feedback, resolvem conflitos e criam condições para colaboração consistente.
Aliás, as preferências no que toca a formatos de formação e desenvolvimento de competências reforça esta leitura. Os profissionais de RH apontam a formação on-the-job e a formação síncrona como os modelos mais adequados às necessidades atuais das organizações. Há uma valorização clara da aprendizagem próxima do contexto real de trabalho, da interação humana e da aplicação prática imediata. Existe uma dimensão relacional da aprendizagem que volta a ganhar importância. E isso é particularmente relevante num momento em que as empresas pedem simultaneamente mais rapidez, mais adaptabilidade e mais capacidade de inovação às equipas.
E depois há a Inteligência Artificial, que é alvo de atenção especial nesta edição do barómetro. Quando se olha para as áreas onde a IA está — ou poderá vir a estar — a ser aplicada, percebe-se rapidamente a prioridade: automatização de tarefas administrativas (59,2%), recrutamento e seleção (41,7%) e desenvolvimento e aprendizagem (34%). Os benefícios identificados seguem exatamente a mesma lógica: otimização de tarefas, maior eficiência e libertação de tempo para atividades mais estratégicas. No fundo, muitas equipas de RH estão a tentar recuperar foco e capacidade de intervenção humana onde ela realmente faz diferença. Menos tempo consumido por tarefas repetitivas e mais tempo dedicado a liderança, cultura, desenvolvimento de equipas e engagement. Do lado das preocupações, a redução do fator humano surge como o maior risco identificado pelos profissionais de RH, acima até das preocupações éticas ou da falta de competências internas para gerir estas ferramentas. E isso diz muito sobre o momento atual das organizações: mesmo num cenário de crescente automação, continua a existir a consciência de que produtividade sustentável não se constrói apenas com eficiência. Constrói-se também com confiança, contexto, colaboração e capacidade de julgamento humano.
Talvez seja precisamente essa a principal leitura do Barómetro RH GALILEU 2026. A produtividade do futuro não será construída apenas com tecnologia, automação ou ferramentas mais inteligentes. Será construída por organizações capazes de combinar eficiência operacional com culturas de colaboração fortes, liderança adaptativa e aprendizagem contínua. Porque, no fim, as empresas mais competitivas não serão necessariamente as que adotarem mais tecnologia primeiro. Serão as que conseguirem criar equipas capazes de aprender, adaptar-se e colaborar melhor enquanto tudo à sua volta continua a mudar.
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Pdro Tavares
Head of Marketing, GALILEU